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Tertium Datur


O ser humano, de uma forma ou de outra, procura desenvolver a sua noção de lugar no mundo, buscando respostas para questões filosóficas ontológicas como:

  • De onde viemos: Criacionismo ou Evolucionismo?

  • Para onde vamos: Céu, inferno ou nada?

  • Qual o nosso papel aqui: Sujeito/objeto, Protagonista/coadjuvante?

  • O que temos que fazer: Ser predador ou presa?

  • O que devo esperar de mim: Postura Ética ou Jeitinho Brasileiro?

  • Para que eu existo: Para um propósito ou para um despropósito?

Essas respostas binárias não ajudavam a entender, principalmente a questão: “para onde vamos?”. No medievo, a resposta para essa questão era de fundamental importância pois, nessa época, se alguém cometesse um pecado extremo e fosse cristão, ele só tinha uma alternativa: ir para o inferno.


Durante o medievo, cometer pecados extremos era comum em virtude da miséria, fome, tiranos e outras mazelas. Depois de pecar e saber que ia para o inferno, as pessoas não se importavam em fazer mais maldades extras pois, já tinham em mente que estavam condenados pelo divino.


Não havia saída. Era do tipo: “Já que estou no inferno, vou abraçar o capeta”. Para dar uma chance para esses pecadores e diminuir a violência, a igreja na época, resolve criar uma alternativa:


Tertium Datur: uma terceira possibilidade para quem não é completamente virtuoso (e por isso merecedor de imediata ascensão ao paraíso) e quem não é irremediavelmente maldito (e por isso punível com a imediata descida ao inferno), ou seja, a grande maioria da população.

Nasce então o purgatório. O ensinamento oficial católico sobre o purgatório foi definido em conselhos de Lyon (1274) e Ferrara-Florença (1438-45) e reafirmado em Trento (1545-63). Com isso, o mundo ocidental se reorienta e define:

  • A existência de um lugar transitório, não eterno, portanto, não definitivo;

  • Permite o acesso, ainda que demorado ao reino dos céus após a purgação dos pecados;

  • Cria um novo espaço para negociação ampliando a geografia entre o céu, a terra e o inferno;

  • Desenvolve o conceito de “esperança”, “competência” e “recompensa”, onde após purgar os “pecados”, pode-se alcançar o paraíso.


Esperança: Poder se arrepender do mal que fiz deliberadamente. Competência: Purgar meus pecados através de autopunição e arrependimento. Recompensa: Atingir os céus na segunda chance que me é dada.


Assim, o purgatório se instala na cultura ocidental flexibilizando o que não deve ser flexível: A ética.

750 anos após a definição do purgatório, o conceito de “segunda chance” para os valores éticos ainda impera na humanidade.


“Segunda chance” aqui quer dizer que podemos ficar sendo antiéticos durante a vida toda e só quando chegar a nossa hora, se arrepender, passar uma temporada no purgatório e depois subir aos céus. Que coisa boa, não é?


O medo que se tinha de ir para o inferno, sendo antiético, foi relativizado e agora, os cristãos, maioria da população mundial, desenvolveram esse paradigma (mesmo inconsciente) de postergar assumir a postura ética tão desejada por todos.


Se você observar bem, as pessoas e organizações, notará que todos vivem num eterno purgatório. As organizações sonegam, fazem caixa dois, corrompem etc., aguardando sua “segunda chance”. As pessoas fazem a mesma coisa: roubam, sonegam, matam etc., esperando o momento de purgarem seus pecados e encontrarem descanso no paraíso.


Postergamos assumir uma postura ética e agir moralmente perante a vida, em virtude (na sua maioria inconsciente) de termos “uma segunda chance”, que no fundo, nunca acontecerá.


Esse é o legado nefasto da igreja católica que herdamos do medievo e que agora faz parte da índole da maioria dos cristãos. Em relação a ética, o certo seria Tertium non Datur.

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